ÉTUDES CRITIQUES
RECHERCHE
Contact   |   À propos du site

O estilo como escrita de si e o objeto a em Flaubert

Sérgio Scotti
 
Communication présentée au IIIe colloque international Psychanalyse et Écriture, université Paris 13, 26-27 novembre 2010.
sergioscotti53@gmail.com
 
Résumé
Le style comme écriture de soi et l'objet a chez Flaubert
Flaubert aurait dit, au sujet de Madame Bovary, le texte le plus connu de son œuvre et considéré comme étant le roman des romans: « Madame Bovary c'est moi, d'après moi. » Quel pourrait être le sens de cette phrase ? Voulait-il se justifier devant la poursuite intentée contre lui pour offense à la morale publique et à la religion,  affirmant ainsi qu'Emma Bovary n'était que le fruit de son imagination ? Ou cette phrase serait-elle l'affirmation de sa création ? Par ailleurs, l'idéal de la littérature de Flaubert était le suivant : « L'auteur en son œuvre, doit être comme Dieu dans l'univers : omniprésent et invisible. » Flaubert aurait-il réussi à atteindre cet idéal, soit celui de disparaître dans le texte ou serait-il resté des parties de lui-même dans le texte ? Qu'est-ce qui dans l'écriture de Flaubert se maintient omniprésent et invisible, son style ? Lacan nous dit : « C'est l'objet qui répond à la question sur le style, que nous posons d'entrée de jeu. À cette place que marquait l'homme pour Buffon, nous appelons la chute de cet objet, révélant de ce qu'elle l'isole, à la fois comme cause du désir où le sujet s'éclipse, et comme soutenant le sujet entre vérité et savoir. » Nous souhaitons donc démontrer que c'est l'objet a qui se maintient dans l'écriture de Flaubert, ce qui détermine son propre style, identifié à son personnage.
Resumo
Flaubert teria dito em relação a, “Madame Bovary”, o texto mais famoso de sua obra, considerado o romance dos romances: “Madame Bovary sou eu, por mim mesmo”. Qual seria o sentido desta frase?  Queria o autor justificar-se diante do processo por ofensa à moral pública e à religião que foi movido contra ele, afirmando assim que Emma Bovary era apenas produto de sua imaginação? Ou seria tal frase a afirmação de uma autoria? Por outro lado, o ideal de literatura de Flaubert era o de que: “O autor em sua obra, deve ser como Deus no universo: onipresente e invisível”. Teria conseguido Flaubert, atingir seu ideal, desaparecendo do texto ou, restou dele, do autor, algo no texto? O quê na escrita de Flaubert permanece onipresente e invisível, seu estilo? Lacan nos diz que: “É o objeto que responde à pergunta sobre o estilo que formulamos logo de saída. A esse lugar que para Buffon, era marcado pelo homem, chamamos de queda desse objeto, reveladora por isolá-lo, ao mesmo tempo, como causa do desejo em que o sujeito se eclipsa e como suporte do sujeito entre verdade e saber”. Queremos demonstrar então que é o objeto a que permanece na escrita de Flaubert, determinando seu estilo e ele mesmo, identificado à sua personagem.
 
  Como brasileiro apaixonado pela obra de Gustave Flaubert, tal qual Llosa e sendo também psicanalista, em 1994, quando viajei pela primeira vez à Paris, estava à procura de escritos que tratassem da relação entre “Madame Bovary” e a histeria, já que após haver assistido o filme de Vincente Minelli de 1949 e lido o romance, a relação entre as duas me parecia óbvia. Encontrei muita coisa, como no Brasil, sobre uma e outra, mas para minha surpresa, quase nada sobre a relação entre elas sob o ponto de vista da psicanálise. De qualquer modo, resultou desse trabalho de investigação uma tese de doutorado e depois um livro[1]. Posteriormente, meu interesse por Flaubert dirigiu-se à questão do estilo, tão cara a ele mesmo ao dizer que: “O estilo está sob as palavras como dentro delas. É igualmente a alma e a carne de uma obra”[2]. E a questão do estilo nos remete necessariamente à questão do próprio sujeito que está implicado na escrita, já que, como nos indica Compagnon, (2001, p. 165 - 194), o estilo é a marca do sujeito no discurso. No entanto, como nos lembra Lacan (1998, p. 11) na abertura de seus “Escritos”, se a questão do estilo passa pelo sujeito, ela passa necessariamente também pela questão do objeto que o determina. Toda essa consideração sobre o estilo, o sujeito e o objeto, nos remete também à questão da “escrita de si”. Creio que a “escrita de si” pode ser entendida tanto no sentido de que a escrita, ela mesma, participa do processo de constituição do sujeito, quanto no processo de escrita, o sujeito, ele mesmo, se revela. O que, na verdade, pode ser entendido como as duas faces de uma mesma mœda. Gostaria então de considerar tal possibilidade, ainda mais uma vez[3], no caso da escrita de um dos maiores escritores da língua francesa, Gustave Flaubert, especialmente em relação à sua obra principal, “Madame Bovary”. Flaubert teria dito em relação a, “Madame Bovary”, o texto mais famoso de sua obra, considerado o romance dos romances: “Emma Bovary sou eu, por mim mesmo”. Tal afirmação pode ser considerada como uma forma de defesa, no contexto do processo por ofensa à moral pública e à religião que foi movido contra ele e seu editor, mas, por outro lado, pode ser entendida também como a afirmação de uma autoria. Mais do que isso, tal afirmação poderia ser entendida ao pé da letra e que Gustave Flaubert era, efetivamente, ele mesmo, Madame Bovary. O que nos remete a uma identificação absoluta e radical entre o escritor e a personagem. Melhor seria se pudéssemos perguntar diretamente a Flaubert o sentido último de sua frase. No entanto, cabe nos perguntarmos: seria ele mesmo capaz de nos dizê-lo? Pelo que sabemos dos dados biográficos de Flaubert, ele não se confundia com sua personagem. O que aponta para a possibilidade de que o sentido mais provável fosse o de que “Madame Bovary” fosse tão somente um produto imaginário da criação literária de seu autor. Mas, por outro lado, Flaubert teria dito também que: “...Tudo que se inventa é verdadeiro,...Minha pobre Bovary, provavelmente nesta mesma hora, sofre e chora numas vinte aldeias da França” (Llosa, 1979, p. 159). Ou seja, apesar de “Madame Bovary” ser fruto da imaginação de Flaubert, haveria um fundo de verdade em sua personagem, ou diríamos: um fundo de real. Poderíamos considerar o mesmo em relação àquela frase de Flaubert, ou seja, de que há um fundo de verdade ou de real, na afirmação de que “Madame Bovary” é Flaubert, ele mesmo, por ele mesmo, para além de uma personagem fictícia criada por sua imaginação. Na direção dessa questão que nos colocamos, há um paradoxo entre a famosa frase de Flaubert que estamos considerando e uma outra afirmação sua de que: “O autor em sua obra, deve ser como Deus no universo: onipresente e invisível”. Esse ideal de Flaubert aponta para o fato de que seu estilo de escrita buscava certa impessoalidade e neutralidade, na qual os fatos e as personagens falassem por si mesmos e onde o autor propriamente dito, estivesse subsumido em sua própria escrita.  Tal ideal estaria então, a princípio, em contradição com aquela afirmação de autoria em que, Flaubert, aparentemente, se identifica com sua personagem. A solução para este aparente paradoxo, talvez possamos encontrá-la se nos reportarmos, a Freud e a Lacan quando este e aquele tratam, respectivamente, da questão do estilo e da produção da escrita literária. Quanto ao estilo, diz Lacan que o que o determina, mais do que o sujeito, é o objeto: “É o objeto que responde à pergunta sobre o estilo que formulamos logo de saída. A esse lugar que para Buffon, era marcado pelo homem, chamamos de queda desse objeto, reveladora por isolá-lo, ao mesmo tempo, como causa do desejo em que o sujeito se eclipsa e como suporte do sujeito entre verdade e saber” (Lacan, 1998, p. 11). Por outro lado, quando Lacan fala da produção literária referindo-se ao “Hamlet” de Shakespeare, no seu seminário ainda inédito, O desejo e sua interpretação, ele refere-se à obra de arte como um corte na realidade, no qual o real do sujeito se expressa, e é sempre bom lembrar que o sujeito que interessa a Lacan e à psicanálise é sempre o sujeito do desejo inconsciente. Essa afirmação de Lacan nos dá uma indicação de que devemos procurar na obra de Flaubert esse real do sujeito que se expressa aí. O que vai de encontro à afirmação de Flaubert de que Madame Bovary seria ele, por ele mesmo. Qual seria então, o fundo de verdade na afirmação de Flaubert? Verdade que não se confunde nem com o saber que o autor tem sobre sua personagem, sobre a trama do romance, nem com seu saber sobre a, ars poética, ou seja, aquele com que segundo Freud (1908) em, O pœta e os sonhos diurnos, o artista mitiga, dissimula seus objetivos egoístas, tornando-os belos e agradáveis aos nossos próprios olhos fascinados de leitor, num prazer preliminar ao gozo da identificação com os fantasmas do próprio artista. Reportamo-nos então aqui ao objeto que, segundo Lacan, é o que cai e eclipsa o sujeito, revelando a causa de seu desejo e suportando-o entre verdade e saber. O fundo de verdade na afirmação de Flaubert, portanto, é o de que em “Madame Bovary”, podemos encontrar a causa de seu desejo, a sua “verdade” ou mesmo seu “ser” conforme nos indica Lacan no seminário sobre, O desejo e sua interpretação em que o real do sujeito que se manifesta na obra de arte, é da ordem do ser. Lembremos novamente Flaubert: “Emma Bovary sou eu...” E qual seria esse objeto? Qual seria o objeto que causa o desejo de Flaubert e que determina seu estilo? Qual objeto que em sua queda, o eclipsa, tal como ele mesmo o busca em seu ideal de escritor que desaparece em sua obra, como a mão de Deus no universo? Para respondermos a esta pergunta temos que nos voltar ao próprio texto de Flaubert. O estilo de Flaubert é marcado pelo discurso indireto livre (Llosa, 1979, p. 154 - 174) no qual, muitas vezes, não sabemos se quem fala é o narrador ou a personagem, o que é reforçado, por outra característica do discurso de Flaubert: as descrições. Flaubert descreve lugares, objetos, situações, circunstâncias, situações, personagens e diálogos de tal forma e com tal gênio que se produzem imagens as quais se constrœm de maneira totalmente alusiva, sem nenhuma referência direta a elas, mas que nem por isso, deixam de ter enorme peso no desenrolar da história e no envolvimento do leitor com a trama e experiências interiores de cada personagem. Então, o objeto que se destaca nessas descrições, o objeto que em sua queda eclipsa o sujeito/autor é o olhar. O olhar que nos descreve as situações e as ações das personagens envolvidas na trama e que se torna o nosso próprio olhar, a partir do qual participamos da cena ao nos identificarmos com a fantasia do artista como dizia Freud em, O pœta e os sonhos diurnos. Um belo exemplo disso em Madame Bovary é o passeio de fiacre que ela e um de seus amantes, Léon, fazem em Rouen, no qual vemos unicamente a descrição desse passeio através da lista dos logradouros por onde passa o veículo, sem nenhuma referência direta ao ato sexual que se desenrola no interior do mesmo, mas que nem por isso deixamos de “ver” em nossa imaginação. No primeiro capítulo da terceira parte do livro, Flaubert (1857/1993, p. 260, 261) descreve o encontro de Madame Bovary com aquele que será seu segundo amante, Léon, na catedral de Rouen. Léon consegue um fiacre que os levará por um passeio vertiginoso através das ruas da cidade:
— Aonde o senhor deseja ir? Perguntou o cocheiro.
— Onde você quiser! Disse Léon empurrando Emma para dentro da carruagem.
E a pesada máquina pôs-se a caminho.
Desceu a rua Grand-Pont, atravessou a praça des Arts, o cais Napoléon, a Pont Neuf e deteve-se de repente diante da estátua de Pierre Corneille.
— Continue! Disse uma voz que saía do interior. O carro partiu novamente e, deixando-se levar pelo declive a partir da encruzilhada La Fayette, entrou a galope pela estação da estrada de ferro.
—  Não, em frente! Gritou a mesma voz.
O fiacre saiu do portão gradeado e, tendo em breve chegado à alameda, foi trotando suavemente no meio dos grandes olmos. O cocheiro enxugou a testa, pôs o chapéu de couro entre as pernas e dirigiu a carruagem para fora das alamedas laterais, à beira d'água, perto da relva.
Ela foi andando ao longo do rio, no caminho de sirga recoberto de calhaus ásperos e por muito tempo pelos lados de Oyssel, mais além das ilhas.
Porém, repentinamente, lançou-se com um salto através de Quatremares, Soteville, a Grande-Chaussée, a rua d'Elbeuf e parou pela terceira vez diante do Jardin des Plantes.
— Vá em frente! Exclamou a voz com ainda maior fúria.
E retomando logo sua corrida, ela passou por Saint Sever, pelo cais dos Curandiers, pelo cais dos Meules, mais uma vez pela ponte, pela praça do Champs-de-Mars e atrás dos jardins do hospital, onde alguns velhos de casaco preto passeavam ao sol ao longo de um terraço coberto por heras verdes. Subiu novamente o bulevar Bouvreuil, percorreu o bulevar Cauchoise, em seguida todo o Mont-Riboudet até a encosta de Deville.
Voltou; e então, sem direção nem destino, ela vagabundeou ao acaso. Foi vista em Saint-Pol, em Lescure, no monte Gargan, na Rouge-Mare e na praça do Gillard-bois; na rua Maladrerie, na rua Dinanderie, diante de Saint-Romain, Saint-Vivien, Saint-Maclou, Saint-Nicaise, - diante da Alfândega, - na Basse-Vieille - Tour, na Trois-Pipes e no cemitério monumental. De tempos em tempos, o cocheiro, em seu assento, lançava olhares desesperados às tabernas. Não compreendia que furor de locomoção levava tais indivíduos a não quererem deter-se. Procurava fazê-lo, algumas vezes, e logo ouvia atrás de si exclamações de cólera. Então fustigava ainda mais seus dois matungos cobertos de suor, mas sem preocupar-se com os solavancos, esbarrando ora aqui ora acolá, sem se preocupar, arrasado e quase chorando de sede, de cansaço e de tristeza.
E no porto, em meio aos carroções e aos barris, e nas ruas, nos marcos das encruzilhadas, os burgueses esbugalhavam os olhos assombrados diante daquela coisa tão extraordinária na província, uma carruagem com os estores fechados e que aparecia assim continuamente, mais fechada do que um túmulo e sacudida como um navio.
O que encontramos neste trecho e em muito outros da obra de Flaubert é um estilo que nos lembra, fazendo um paralelo com o sonho, a alusão, efeito do deslocamento, da metonímia que transfere a significação do ato sexual para a descrição da carruagem fechada como um túmulo e sacudida como um navio. E por que o deslocamento? Porque Flaubert nos fala de seu fantasma, da cena primária (Freud, 1917/1973, p. 2353) em que os pais copulam diante do espectador que a descreve para nós, copulam diante de nós, para nosso deleite, seduzidos pela bela forma em que a cena nos é apresentada. Portanto o objeto em Flaubert é o olhar, objeto que cai, que se revela quando o sujeito, eclipsado por sua própria escrita, isola-o de si mesmo embora nele se suporte. Não poderia haver melhor descrição do que esta do ideal de Flaubert: que a mão do escritor, na obra, desaparecesse como a mão de Deus no universo. Contudo, tal como a mão de Deus, a mão do escritor deixa seus rastros, os rastros do objeto que é a causa de seu desejo. O objeto olhar é tão fundamental no estilo de Flaubert que ele procurará cerni-lo de forma obsessiva, colocando-se o objetivo maior de escrever sobre nada, “O que me parece belo e que gostaria de fazer é um livro sobre nada, um livro sem nada que o ligue ao mundo exterior, que se mantenha por si mesmo pela força interna de seu estilo”[4], ou seja, onde o que importa antes de tudo é o exercício do próprio estilo. Diríamos, onde o que resta é o próprio olhar.  Tal como o que resta na escrita de outro autor que é James Joyce: a voz. Em Joyce, diferente de Flaubert, especialmente em, Finnegans Wake, seu estilo, não produz imagens. Joyce, subvertendo a língua inglesa, ao juntar, amalgamar as palavras, joga com elas de tal forma que o que se destaca em seu texto é a letra, o suporte material do significante. E o objeto que cai e determina seu estilo é a voz. Lacan mesmo, em seu seminário 23 sobre o Sinthoma, recomenda que se leia Finnegans Wake em voz alta. Em James Joyce, o objeto que cai a partir de sua escrita e determina seu estilo é a voz. Ao invés das personagens parentais de Flaubert que copulam diante de nós, em Joyce são os próprios significantes que copulam, juntam-se, amalgamam-se, misturam-se provocando um gozo que é potencializado pela leitura em voz alta de“Finnegans Wake”, o Velório de Finnegan, como sugere Lacan (2007) no seminário “O Sinthoma”:
Par tido? Eu o teria dito! Macool, Macool, porra, por quiski, ocê murreu?
Foi de sede em terça merdinha? Chopes aos choupos no do Finnado
veludo velório, estrelas de tod anação, a prostração na
consternação e a duodizimamente profusiva plethora de
ululação. Havia à porfia pedreiros, casados, delgados, violeiros,
marinheiros, cinemen, de tudo. E todos giravam na mais alto-
falante showialidade. Agogue e magogue rodeavam o grogue.
Para a continuação da celebração até à de Gengiscão
exterminação! Alguns no tam-tam do tamborim, e mais, cancan no pranto.
Pra cima no batuque pra baixo no muque. Tá duro, mas soberbo,
O Priapo d'Olin da! Se houve cabra alegre no tablado,era o Finnado. Afila
Em cone a pipa de pedra, que pingue cevada!Adonde neste bosta y mundo
Escuitarás loisa igual? Ir de pros fundos e dar desta à
fé deles? Acomodaram o salmão em seu derradeiro leito. Com um abocálipse
de finisky aos pés. E uma genesíaca barrica da loiraespumante à cabeça.
Te que o tutal do fluido flua no duotal do fluminado, Ué! (Joyce, 1939/1990, p. 37).
  Embora Flaubert e Joyce sejam autores tão distintos em suas obras e seus estilos, os dois compartilham com a literatura uma relação na qual eles encontram nela seu próprio ser, escrevem a si mesmos, mesmo que não saibam ou não queiram nela se reconhecer, “... Madame Bovary nada tem de verdadeiro. É uma história totalmente inventada: lá em nada meti nem de meus sentimentos nem de minha existência. A ilusão (se é que há uma) vem, pelo contrário, da impersonalidade da obra” (Llosa, 1979, p. 162) . Lacan destaca no seminário 23, sobre o Sinthoma, que a escrita de Joyce funciona para ele como um nó suplementar na constituição de sua subjetividade, como uma suplência ao Nome-do-Pai. E que através dela, ele cria um nome para si, o nome do autor Joyce. Em Flaubert, encontramos a mesma relação com “a escrita de si”, se bem que não da mesma forma que em Joyce, talvez porque diferente dele não houvesse uma ausência de pai, mas, pelo contrário, uma forte presença do pai cirurgião de quem Flaubert teve que se diferenciar. De qualquer forma, a escrita enquanto forma de construção de si mesmo, de sua própria subjetividade, aparece em Flaubert e justamente em sua famosa frase: “Emma Bovary, sou eu por mim mesmo”. Creio que podemos entender então a frase de Flaubert, não como uma simples justificativa perante a sociedade ou a justiça e nem mesmo como uma suposta identificação com a personagem, embora ela até possa existir em algum nível, mas antes de tudo, como a afirmação de uma autoria. Mais do que isso, se trata da afirmação do ser, do real do sujeito, tal como nos indica Lacan no já citado seminário 6, O desejo e sua interpretação. Talvez então pudéssemos traduzir a frase de Flaubert da seguinte forma: “Ao escrever Madame Bovary, me torno Flaubert, o autor Flaubert, portanto meu ser está em, Madame Bovary ”. O que gostaria de destacar aqui é que não há um sujeito Flaubert ou Joyce, antes de sua escritura. Eles se realizam como tais, enquanto autores, através e pela escrita, através desse corte na realidade que é a obra de arte, onde aparece o real do sujeito. Ou seja, não existe ou pré-existe um sujeito anterior à obra e que a determina. O sujeito é, na verdade, resultado da própria obra, pois como vimos o que está implicado nela é um objeto que é a causa de seu desejo. Dizendo de outra forma, a obra é, na verdade, causa do sujeito. É nesse sentido que podemos entender a escrita como uma “escrita de si”. A “escrita de si”, nesta acepção, indica que o si mesmo não encontra outra realização senão na escrita mesma e até mesmo para além da condição de autor. É na condição de sujeito mesmo que Flaubert encontra sua realização na escrita, “Sou um homem-pena. Sinto por meio dela, em relação a ela, e muito mais juntamente com ela”. Então, ao fim, o real do sujeito que se expressa na obra é como indica Lacan, um objeto, o objeto a. Mas se o objeto a é justamente o objeto que falta e se este objeto aponta para questão do ser, temos que o que se realiza na obra, mesmo assim, é a falta-em-ser do sujeito. O real do sujeito que se manifesta na obra de arte e aponta, na verdade, para sua falta, indica que a própria escrita é objeto causa de desejo.    Mas se o próprio do sujeito é sua falta-em-ser, como é que algo do real, do seu ser, se manifesta aí? Este algo então, é a pulsão, pois, como diz Lacan na sessão 24, de 10 de junho de 1959, de seu seminário 6, o fantasma, que põe o sujeito em relação com o mundo, com os outros, está marcado por uma pulsão recalcada. O real da pulsão, inexorável, que sempre retorna igual a si mesma já que, o quê se recalca, são somente seus representantes psíquicos através dos quais ela sempre retorna disfarçada em outros, tal como nos sonhos e na arte. Então, através do fantasma o sujeito se manifesta na obra de arte, mesmo sem o saber, na forma pela qual enfrenta sua falta-em-ser, pelo que faz com esta falta, por um savoir faire. No caso da obra de arte, pensamos que o artista faz alguma coisa com a falta, coisa que marca seu estilo.       Referências: COMPAGNON, A. O Demônio da teoria : literatura e senso comum. Belo Horizonte: UFMG, (2001). FLAUBERT, G. Madame Bovary. Tradução de Fúlvia M. L. Moretto, São Paulo: Nova Alexandria (Texto original publicado em 1857), (1993). FREUD, S. El pœta y los sueños diurnos. In Obras Completas de Sigmund Freud. (v. 2, 3ª. Ed) Madrid: Biblioteca Nueva, (Texto original publicado em 1908), (1973). _________. Vias de formación de síntomas. In Obras Completas de Sigmund Freud. (v. 2, 3ª. Ed) Madrid: Biblioteca Nueva, (Texto original publicado em 1917), (1973). JOYCE, J. Finnegans Wake/ Finnicius Revém. Livro I (Versão de DonaldoSchüler) Porto Alegre: Ateliê Editorial, (Texto original publicado em 1939), (1999). LACAN, J. Seminário 06 : O desejo e sua interpretação(inédito), (1958). ________. Abertura desta coletânea. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, (1998). ________. O seminário, livro 23 : o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, (2007). LLOSA, M. V., A orgia perpétua:

NOTES

[1] “A estrutura da histeria em Madame Bovary”, Editora Casa do Psicólogo/EDUSP, 2003.
[2] Essa frase de Gustave Flaubert já é de domínio público, como todas as outras que são citadas aqui em particular e tantas outras que podem ser encontradas em qualquer biografia ou site da internet sobre Flaubert.
[3] Já considerei a relação entre o estilo e o objeto a em Flaubert e outro autor que é James Joyce, em diferentes artigos, “Psicanálise desejo e estilo”, “Psicanálise e literatura: o objeto e o estilo em Flaubert e Joyce”, publicados respectivamente nas revistas brasileiras: Psychê, no. 15 e O Marrare, no. 11.
[4] Frase de Flaubert citada na orelha do livro, Madame Bovary. Tradução de Fúlvia M. L. Moretto, São Paulo: Nova Alexandria, 1993.


Mentions légales